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pcalao

The Girl Who Keeps Reading

Confessions and opinions of a book geek with a severe addiction of buying more books than she can ever read during her life time. Feel free to stay for a while and share your literary thoughts.

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The Rose Garden
Susanna Kearsley, Nicola Barber
Beauty - Robin McKinley Sempre fui apaixonada pelo conto de A Bela e o Monstro ao ponto de, em pequena, gastar a minha vídeo-cassete da Disney por ver o filme tantas vezes! Ainda hoje gosto de o ver. É claro que quando ouvi falar tão bem deste retelling de Robin McKinley adicionei-o logo à minha wish list. Quando finalmente consegui deitar mão ao livro devorei-o de uma vez e, como seria de esperar, gostei imenso. Não só por ser um retelling de um dos meus contos preferidos de sempre, mas também pela escrita da autora, pelo tom e originalidade que a autora trouxe à história.

Tudo começa quando o pai de Beauty perde a sua fortuna e a família se vê obrigada a sair da cidade. Gervain, o noive de Hope, uma das irmãs de Beauty, convida-os a morar com ele nas terras do interior inóspito e sombrio, onde poderiam viver uma vida mais modesta, mas digna. Partem todos para Blue Hill, onde se instalam na orla de uma floresta encantada e se adaptam à dureza da vida de quem depende dos frutos da terra para sobreviver. Quando, numa viagem, o pai de Beauty entra no castelo de Beast e rouba uma rosa, a história segue o percurso que tão bem conhecemos.

A história é narrada segundo a perspectiva de Beauty, no que imagino ser o tom de um contador de histórias ao falar para os seus ouvintes, sentados perto do fogo num ambiente místico e fantástico, a ouvir uma história tão antiga como o mundo. A acção é bem desenvolvida, a autora consegue explorar o conto original sem o esgotar, com o ritmo moderado e uma linguagem bastante cuidada.

Apesar deste retelling ser semelhante ao conto de fadas tradicional relativamente à acção principal da história e aos pontos principais do enredo, Robin Mckinley consegue desenvolver um universo original. O castelo encantado de Beast é o mundo fantástico dos sonhos e da magia, descrito de forma belíssima pela autora, de tal modo que conseguimos visualizar perfeitamente no nosso imaginário tudo o que Beauty vê e sente ao passear pelo castelo e pelos seus parques. No castelo, Beauty é servida por criados invisíveis e as paredes e escadarias movem-se para facilitar o acesso às salas em que queremos entrar. A biblioteca de Beast é ainda mais fantástica, porque contém todos os livros que foram escritos e que ainda se irão escrever no futuro (estão a imaginar uma biblioteca destas na realidade??? era bom demais, por isso é que só existe nos universos fantásticos).

O desenvolvimento psicológico dos personagens também é, a meu ver, um ponto forte e original do retelling. Conseguimos criar facilmente uma relação de empatia com todos. Ao contrário do que esperamos, Beauty é uma rapariga simples, inteligente, trabalhadora e prática, com pouca beleza física e elegância, um verdadeiro rato de biblioteca. O seu verdadeiro nome é Honour, mas conquistou a alcunha de Beauty, que acabou por pegar, (sim, os nomes das raparigas da família de Beauty são adjectivos que se adequam às suas personalidades, outra coisa gira!). Beauty é ainda uma adoradora de animais, tendo uma afeição especial pelo seu majestoso cavalo Greatheart. Ao valorizar a inteligência e os traços psicológicos de Beauty, a sua auto-suficiência e independência, este retelling acaba por ser uma interpretação mais feminista do conto tradicional.

Já Beast não traz exactamente nada de novo, a não ser a sua infinita paciência. Na verdade, ele é adorável! Tem um bom coração, é extremamente culto e amável, mas é muito inseguro, um bocadinho tímido e perdeu a esperança de um dia encontrar a verdadeira felicidade. Juntamos uma rapariga com baixa auto-estima, que só vê o interior das pessoas e que adora animais, a uma criatura só, dona de uma biblioteca fantástica e extremamente amável... é óbvio que ia nascer, pelo menos, uma amizade. Quando Beauty começa a ser sensível à magia que envolve o castelo e se apercebe que os seus sentimentos por Beast são um bocadinho mais profundos do que a razão permite, surgem alguns conflitos interiores. Vai então tentar desvendar o mistério que encobre a verdadeira natureza de Beast. Entretanto, o livro tem cenas encantadoras e engraçadas entre os dois, e também no que diz respeito à família de Beauty e às suas duas criadas teimosas no castelo.

Apesar das dificuldades que os personagens têm de enfrentar e da rudeza que as descrições da vida no campo nos transmitem, o livro transborda ternura. McKinley desenvolveu uma história romântica, muito doce, que evidencia o amor, a força feminina, a amizade, a honra, a coragem, a beleza interior e os laços familiares. E talvez por ser um livro tão ternurento senti que faltava alguma coisa. Sim, quando terminei de ler o livro fiquei com aquela sensação boa que temos quando lemos uma história feliz e bonita e não, não é um livro extremamente lamechas. A verdade é que senti falta de intempéries fortes, vilões maldosos e mortes desastrosas. Mas continua a ser um livro do qual gostei imenso (!!!!) e que recomendo a todos os amantes de conto de fadas, em especial de A Bela e o Monstro, e também a quem adora finais felizes.

(http://chmeianoite.blogspot.pt/2012/03/beauty-robin-mckinley-opiniao.html)